Crédito das fotos: Karen R. Igari

Crédito das fotos: Karen R. Igari

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Quando nos decepcionamos com alguém que amamos

 Dor. É a única palavra capaz de resumir fielmente tanto aquele momento impactante e destruidor quanto o que sentimos bem na alma...

 Quem já provou o amargo da decepção sabe que a primeira coisa que desejamos é que nada tivesse acontecido; seria como despertar depois de um pesadelo, mas, infelizmente, estamos mais acordados do que nunca!

 Nessa hora surge uma onda de emoções, lembranças, perguntas, vozes dizendo uma série de frases do tipo: “Por quê?!”, “Nossa, será que não a conheço como acreditava que conhecia?”, “Será que tal pessoa não pensou que estaria me desrespeitando?”, “O que passou na cabeça de fulana?”, “Eu não acredito que isto esteja acontecendo comigo!” e por aí vai.

 Dói, meu caro. E dói muito. Se você nunca passou por isso, espero que continue assim, e que você saia ileso dessa, porque o buraco aberto pela dor da decepção é grande e demora um bocado pra fechar.

 Agora, por que é que estou falando isso? Porque acredito, de coração, que podemos aprender no amor. Aquela história de que o ser humano só é capaz de aprender na dor, honestamente, eu discordo completamente. Podemos sim extrair dos acontecimentos alheios grandes aprendizados e, com isso, economizar tempo e energia, os quais poderão ser utilizados para outras coisas mais prazerosas e frutíferas.

 Sofrer uma decepção e, ainda, vinda de alguém que amamos tanto, talvez seja a terceira maior dor que exista, seguida da perda de uma pessoa querida e do arrependimento.

 E proporcional à intensidade dessa dor é a dificuldade em perdoar. São muitas emoções e muitos sentimentos corrosivos: raiva, tristeza, irritação, mágoa, insegurança, ódio, desconsolo, frustração, ... É muita coisa para lidar, trabalhar, apaziguar, perdoar.

 Não acredito que punir ou ignorar essa onda violenta seja o melhor a ser feito, porque tudo aquilo que colocamos debaixo do tapete, em algum momento, ressurge.

 Por isso, não há problema em aceitar e acolher tudo o que estamos sentindo, mesmo que colaborem com nosso sofrimento. É necessário vivenciar; permitir-se sentir todas essas emoções, dar-lhes espaço e tempo para perdurarem o quanto que precisarem, porque haverá um momento em que nós mesmos ou daremos um basta, ou elas simplesmente desbotarão...

 Perdoar não é fácil, seja a nós mesmos ou aos outros. A convivência é uma bênção que recebemos. Podemos muito bem optar por não recebê-la, escolhendo viver isoladamente, ou aceitar esse presente de braços abertos, mas estando cientes de que há certas consequências inevitáveis, como a arte de conviver: receber, doar-se, trocar, aprender, ensinar, amar, ser ou não ser amado, perdoar, ser ou não ser perdoado...

 E sabe por que não coloquei as opções “não amar” e “não perdoar”? Porque se você deseja viver intensamente e da melhor forma, fazendo sua vida e sua passagem valerem a pena, então é bom que as únicas alternativas sejam “amar” e “perdoar”. Somente o amor é capaz de mostrar e ensinar a todos nós lições preciosas, as quais contribuem com nosso amadurecimento e, consequentemente, com nossa evolução. Bom, eu acredito que estamos aqui para isso: cumprir com o nosso propósito e partirmos melhores do que quando chegamos.

 E juntamente ao amor está o perdão. Cometer enganos e erros faz parte do ser humano. E você, ser humano, que convive com seres humanos, tanto pode ser vítima desses atos, como também ser o agente deles. Evitar cometê-los também é uma maneira de aperfeiçoar o seu eu e de tornar-se uma pessoa melhor. Pedir perdão e perdoar é fundamental.

 Aliás, o perdão, na verdade, não é algo para beneficiar ao outro, mas a si mesmo. É assegurar sua paz de espírito, seu bem-estar. Perdoar é libertação; é escolher caminhar sem pedras nas mãos; é ter os braços livres para acolher e oferecer; é decidir viver em paz consigo; é optar pela leveza; é focar no que realmente vale a pena ser cultivado.

 Mas perdoar, também é compreender que podemos falhar e que temos falhas; que não somos perfeitos, mas que podemos tentar agir com maior perfeição. Perdoar é dar uma segunda, terceira, quarta, quinta, milésima chance a si e ao outro. Perdoar é entender de que se trata da melhor forma de lidarmos com uma decepção, de modo que isso só venha a acrescentar ao nosso autodesenvolvimento.

 Perdoar não tem a ver com bondade, orgulho, merecimento ou com quem tem razão. Perdoar é limpar-se; é libertar-se. Perdoar é viver melhor; é querer melhorar. Perdoar é dar um novo sentido à decepção, é transformá-la de agrotóxico para adubo. Perdoar é ter coragem de estender a mão para ajudar e pedir ajuda. Perdoar é aceitar que os erros existem e acontecem, mas que podem ser superados. Perdoar é aceitar suas próprias falhas e as das pessoas que ama. Perdoar é escolher andar pra frente e olhando pra frente. Perdoar é enxergar-se no outro também. Perdoar é compreender que somos todos um...


Um forte e afetuoso abraço...

(Karen Igari)

Foto particular - KRI: foto tirada em Lambari
Foto tirada em Lambari, em 03/2014.