Crédito das fotos: Karen R. Igari

Crédito das fotos: Karen R. Igari

terça-feira, 17 de maio de 2016

"A cigarra e as formigas - A formiga boa"

  Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
 Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
  A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
  Manquitolando, com uma asa a arrastar-se, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu - tique, tique, tique...
  Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
  - Que quer? - perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
  - Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
  A formiga olhou-a de alto a baixo.
  - E que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?
  A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
  - Eu cantava, sabe...
 - Ah!... exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
  - Isso mesmo, era eu...
 - Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
  A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

(Monteiro Lobato, in: Fábulas)

Foto particular - KRI: foto tirada em Abadiânia
Foto tirada em Abadiânia, em 05/2014.