Crédito das fotos: Karen R. Igari

Crédito das fotos: Karen R. Igari

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

"O isopor e a neve"

 Aconteceu comigo. Eu, que trabalho em casa, senti uma necessidade súbita de sair, atravessar paredes, ganhar as ruas por alguns minutos, a fim de renovar o fôlego para continuar a escrever. Precisava enviar uma correspondência e resolvi: vou a pé até uma agência dos Correios, tem uma pertinho, a cinco quadras de onde moro. Fui.
  Cheguei lá, não sem antes ter sido quase atropelada por um automóvel, foi por um triz. Despachei a carta, saí da agência e foi então que eu vi: um caminhão deixou cair no meio da rua um saco enorme cheio de isopor. O caminhão seguiu seu rumo sem perceber o rastro que ficou pra trás. Em segundos, aquele isopor em lâminas foi se transformando em pedaços miúdos. Os carros passavam por cima e o isopor se desintegrava em partículas que se movimentavam para cima e para os lados em câmera lenta, de tão leves. Parei, porque se eu atravessasse a rua de novo, não haveria uma segunda chance: seria atropelada de fato. Eu não estava mais em mim. Via nevar em Porto Alegre no meio de uma tarde de novembro. Neve de isopor.
  Qualquer semelhança com Beleza americana é, sim, uma feliz coincidência. Se você viu o filme, não pode ter esquecido aquela cena. Um saco plástico vazio sendo movimentado pelo vento durante alguns minutos. Apenas a câmera e o saco plástico dançando em slow motion diante dos nossos olhos. Certamente, uma das cenas mais bonitas e poéticas que já vi no cinema.
  Foi bem assim. Pedacinhos de isopor que pareciam flocos de neve dançavam sobre o asfalto numa tarde abafada de Porto Alegre. Carros velozes passavam por cima, e os isopores ali, flutuando lentamente, alheios à pressa urbana. O que significava aquilo?
  Nada.
 Por isso o estranhamento. Por isso a gentileza. As coisas sem significado são tão raras, acontecimentos gratuitos costumam ser tão despercebidos que, se você percebe, ganha o dia. Foi uma cena real, não de cinema, e por isso não teve trilha sonora, os motores dos automóveis violavam o silêncio, mas dentro da minha cabeça ouvi música clássica por alguns segundos, encantada com a neve no asfalto.
  Aí o isopor foi se dispersando, se dispersando, e eu comecei a me sentir uma idiota parada no meio da calçada, inerte, como se tivesse testemunhado um atropelamento. Metaforicamente, é o que havia acontecido. Eu havia sido atropelada. Não um atropelamento como quase havia ocorrido minutos antes, quando um carro tirou um fininho de mim em plena faixa de segurança, mas foi outro tipo de atropelo: fiquei paralisada por ter sido plateia de um pouco de poesia no meio de uma tarde de um dia útil, que se mostrou útil justamente quando parei de trabalhar.
  Voltei pra casa e escrevi esse texto sem propósito, em homenagem à neve que também não era neve.

5 de novembro de 2008

(Martha Medeiros, in: Feliz por nada)

Foto particular - KRI: foto tirada no Parque do Ibirapuera
Foto tirada no Ibirapuera, em 07/2014.